Responsabilizar os eleitores pela violência no Ceará é uma forma de transferir para a população um problema que exige respostas concretas do poder público. A declaração de Wagner reacendeu o debate sobre segurança pública no estado, mas também levanta uma questão: qual foi o resultado de sua própria atuação política diante desse cenário?
Em entrevista ao Ceará Antenado, página que, segundo as informações divulgadas, é ligada ao ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio, Wagner afirmou que os cearenses estariam perdendo filhos para facções criminosas e organizações violentas. O político também responsabilizou as escolhas feitas nas urnas e consequências.
O discurso merece contestação. A violência não pode ser tratada como consequência exclusiva do voto popular, como se a população fosse a principal responsável pela atuação de organizações criminosas. O enfrentamento das facções exige políticas públicas, planejamento, integração das forças de segurança, prevenção e cobrança permanente dos gestores e representantes eleitos.
A fala também ocorre após Wagner acumular derrotas em disputas eleitorais. Em 2024, quando concorreu à Prefeitura de Fortaleza, ele terminou a disputa em quarto lugar, com 11,40% dos votos válidos, segundo os resultados eleitorais.
O que Wagner fez na área da segurança pública?
Durante seu mandato como deputado federal, entre 2019 e 2022, Wagner apresentou propostas e participou de iniciativas relacionadas à segurança pública. O histórico oficial da Câmara, porém, exige uma distinção entre apresentar projetos e comprovar resultados concretos na redução da violência no Ceará.
Em 2019, ele propôs a criação de centros de atendimento biopsicossocial para profissionais da segurança pública em todo o país. A proposta foi anexada a outro projeto de lei e seguia em tramitação na Câmara em abril de 2023.
Também em 2019, o então deputado pediu uma audiência pública para discutir a exclusão de Maracanaú do projeto-piloto do Programa Nacional de Enfrentamento à Criminalidade Violenta. A audiência foi realizada em novembro daquele ano.
Já em 2022, apresentou um projeto para ampliar a previsão de homicídio qualificado em crimes contra determinadas categorias, incluindo agentes de trânsito, guardas municipais e integrantes do sistema de Justiça. A proposta acabou declarada prejudicada em agosto de 2023, após a aprovação de um substitutivo a outro projeto.
Esses registros mostram que Wagner teve iniciativas parlamentares na área, mas não permitem concluir, por si só, que sua atuação tenha ajudado a uma redução efetiva da criminalidade no estado. Da mesma forma, não seria correto afirmar que ele nada fez.
A cobrança, portanto, precisa valer para todos: se a população deve responder politicamente por suas escolhas, os políticos também precisam prestar contas de suas propostas, decisões e resultados. A segurança pública é um dever do Estado e não pode ser reduzida a uma acusação contra os eleitores.
