A proposta de reduzir em larga escala os gastos públicos brasileiros entrou no debate presidencial de 2026, mas economistas alertam que um ajuste de cerca de R$ 200 bilhões dificilmente seria realizado sem consequências para políticas sociais, investimentos e serviços públicos.
Pedro Paulo Zahluth Bastos, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que aproximadamente 90% das despesas primárias federais são obrigatórias, incluindo Previdência, Benefício de Prestação Continuada (BPC), salários do funcionalismo, recursos mínimos para saúde e educação e Bolsa Família. As despesas discricionárias, que podem ser ajustadas pelo governo, somam pouco mais de R$ 200 bilhões e incluem investimentos e custeio de universidades, hospitais federais e da Polícia Federal.
Na avaliação do especialista, um corte desse tamanho, sem mexer nos benefícios sociais, praticamente eliminaria os recursos disponíveis para outras despesas. Já a professora Maria Lourdes Mollo, da Universidade de Brasília (UnB), afirma que a redução dos gastos também pode desacelerar a economia, afetando emprego, renda e arrecadação, com reflexos no financiamento da saúde e da educação.
O que defendem Lula e Flávio Bolsonaro
O debate ganhou força após Flávio Bolsonaro defender um amplo corte de despesas inspirado nas medidas adotadas pelo presidente argentino Javier Milei. A coordenadora de sua equipe econômica, Daniella Marques, afirmou, em entrevista à GloboNews em agosto, que o plano prevê um ajuste equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), estimado em cerca de R$ 190 bilhões com base na economia de 2025.
Nos últimos dias, a campanha do senador passou a enfatizar que pretende concentrar os cortes em privilégios do funcionalismo, como supersalários, e no combate a fraudes. Flávio também nega que pretenda reduzir programas e benefícios sociais.
O professor da Unicamp, porém, avalia que medidas como a extinção de ministérios e o combate a irregularidades não seriam suficientes para alcançar uma economia de centenas de bilhões de reais. Segundo ele, reduções dessa magnitude exigiriam mudanças nas despesas obrigatórias ou nas regras de reajuste dos benefícios.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, afirma que o plano de seu adversário pode prejudicar aposentados, pensionistas do INSS e beneficiários de programas sociais. A equipe petista defende um ajuste fiscal gradual, distribuído ao longo de um eventual quarto mandato.
O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, projetou, em entrevista à Folha de S.Paulo, uma trajetória que levaria as contas públicas de um déficit de 0,5% do PIB em 2026 a um superávit de 1,5% em 2030. A estratégia, segundo ele, envolveria desacelerar despesas obrigatórias e preservar direitos, mantendo o equilíbrio fiscal.
Juros e dívida pública
Outro ponto central da discussão é o custo dos juros. De acordo com Bastos, essas despesas consomem aproximadamente R$ 1 trilhão por ano e representam uma pressão importante sobre as contas públicas. O economista cita dados segundo os quais os juros equivalem a 8,9% do PIB, enquanto o déficit do setor público corresponde a cerca de 0,6%.
Em setembro, o Brasil também registrou a maior taxa real de juros do mundo, segundo a consultoria Moneyou. Para o professor, esse cenário precisa ser considerado na discussão sobre o controle da dívida pública e a distribuição dos custos do ajuste fiscal.
Arcabouço fiscal divide propostas
As campanhas também apresentam caminhos distintos para as regras que limitam o crescimento das despesas federais. Lula promete manter o Novo Arcabouço Fiscal, aprovado no início de seu governo, que vincula a expansão dos gastos ao crescimento da receita dentro de limites estabelecidos.
O plano petista associa o equilíbrio das contas à retomada do crescimento econômico, ao controle das despesas primárias e à melhoria da eficiência dos gastos públicos.
Já a campanha de Flávio Bolsonaro propõe mudanças no modelo atual, com foco na estabilização e posterior redução da relação entre dívida e PIB, na busca por superávits primários e na limitação do crédito subsidiado.
Para os economistas ouvidos pela Agência Brasil, o desafio é compatibilizar a sustentabilidade das contas públicas com a manutenção dos serviços, investimentos e benefícios que atendem à população.
